Motivação no Desporto






A motivação é um dos conceitos mais utilizados no desporto (Chantal et al., 1996). A importância da motivação parece dever-se ao facto de, quaisquer que sejam os níveis de performance de um atleta, baixos níveis de motivação repercutirem alguma problemática associada ao rendimento (Lázaro, et al., s.d.).

A motivação é a insistência em caminhar em direção a um objetivo, isto é, a mobilização de uma energia e a orientação dessa mesma para um fim (Chauvier, 1989; Singer, 1977).

Existem vários fatores que influenciam o rendimento, sendo os que têm maior destaque a motivação (intrínseca e extrínseca), a autoestima, a autoconfiança, a ansiedade e a agressividade (Pujals & Vieira, 2002).     

As teorias da motivação conceptualizam o comportamento em função de duas dimensões: a direção e a intensidade (Thill, et al., 1989). A direção corresponde à orientação seletiva do comportamento para um objetivo, podendo este ser material ou um certo nível atingir (Thill, et al., 1989). A intensidade refere-se à quantidade de energia investida no comportamento (Thill, et al., 1989). Esta vertente da motivação é importante no sentido de ajudar a elaborar estratégias de motivação para manter ou elevar o nível de entrega dos atletas às suas tarefas (Thill, et al., 1989).

Sendo assim, a motivação é o processo que coordena e dirige a direção e a intensidade do esforço dos atletas na sua modalidade (Weinberg & Gould, 2007). A tónica desta competência consiste na tendência para lutar pelo sucesso, persistindo face a fracassos e experimentando o orgulho pelos resultados conseguidos (Lázaro, et al., s.d.).

Esta competência psicológica é referida pelos treinadores como a principal, quer nos treinos, quer nas competições (Paim, 2004). Desta forma, a motivação é um elemento chave para que os atletas de alta competição executem as orientações dos treinadores e realizem os seus treinos diários (Paim, 2004).

Maggil (1984, cit. in Paim, 2004) refere que a motivação está associada à palavra motivo, podendo este ser definido como uma força interior, impulso, intenção, que determina a ação de um indivíduo. Assim sendo, para compreender a motivação é necessário investigar os motivos que influenciaram um dado indivíduo a ter aquele comportamento, uma vez que todo o comportamento é motivado, isto é, é impulsionado por motivos (Paim, 2004).

De forma geral, os motivos considerados como mais importantes para o envolvimento na prática desportiva são (Cruz, et al., 1995): o desenvolvimento de competências; as necessidades de afiliação; a realização/ estatuto; a excitação/desafio; a forma física; a descarga de energias; e a atmosfera de equipa/amizade.

Passer (1981, cit. in Paim, 2004) categorizou os motivos para a prática desportiva da seguinte forma:

- Afiliação: inclui motivos como estar com os colegas, encontrar novos colegas, receber o reconhecimento por parte dos colegas, gostar do espírito de equipa ou pertencer a uma equipa;

- Desenvolver habilidades: agrupa motivos como melhorar as habilidades, aprender novas habilidades, ir para um nível superior;

- Excitação e desafios: incorpora gostar do estímulo, apreciar a ação, gostar de competir, gostar de desafios;

- Sucesso e status: inclui motivos como gostar de vencer, querer ser notícia através dos meios de comunicação, fazer o que é bom, gostar de ganhar status social;

- Aptidão: engloba motivos como querer ficar em forma, gostar de fazer exercícios, querer ser fisicamente apto;

- Libertação de energia: apresenta motivos como querer aliviar a tensão e, ao mesmo tempo, querer ganhar energia.


Por outro lado, as razões mais frequentemente relatadas para justificar o abandono da prática desportiva têm sido o excesso de ênfase na vitória ou na competição; o conflito de interesses; o stress e a pressão competitiva; a falta de tempo de jogo; e problemas de relação interpessoal com os treinadores (Cruz, et al., 1995).

São vários os motivos que se interligam. Por um lado aqueles referentes à própria prática desportiva e, por outro, aspetos que ultrapassam o próprio desporto (Martins, 2002). A diversidade de motivos que influenciam os atletas são formados muitas vezes por acontecimentos passados e próximos, atuando de variadíssima forma (Martins, 2002). Os motivos que influenciam beneficamente um atleta para uma boa performance modificam-se dia a dia, jogo a jogo, época para época (Martins, 2002). As razões pelas quais um atleta atua numa modalidade são extremamente variáveis e não são suscetíveis de se reduzirem a conceitos rígidos (Martins, 2002). Não só são diferentes as razões de cada atleta para ingressar numa equipa, como também os motivos que o fazem atuar durante toda a época (Martins, 2002).

Existem duas dimensões quanto às fontes de motivação – a intrínseca e a extrínseca. A intrínseca refere-se aos motivos internos e não está dependente dos objetivos externos ou seja, importam os motivos que se relacionam com a própria prática e com os sentimentos que ela provoca (Chantal et al., 1996). Geralmente as pessoas que se regem por motivos intrínsecos para a prática desportiva fazem-no porque gostam de ser competentes e gostam da própria competição (Lázaro, et al., s.d.). Este tipo de motivação refere-se ao prazer que a prática desportiva proporciona ao sujeito (Calmeiro & Matos, 2004). Em relação à motivação extrínseca, esta caracteriza-se por ser uma fonte de motivação proveniente de outras pessoas, sob a forma de reforços externos positivos ou negativos, como as recompensas monetárias e o prestígio (Chantal et al., 1996; Lázaro, et al., s.d.). As pessoas orientadas extrinsecamente para a prática desportiva fazem-no para demonstrar habilidades e para se evidenciarem socialmente (Lázaro, et al., s.d.).

Vasconcelos-Raposo (2002) chama a atenção que este conceito culturalmente tem uma particularidade relativista, uma vez que os motivos diferem de lugar para lugar, entre sistemas sócioculturais e ao longo do desenvolvimento do indivíduo. Assim sendo, pode-se referir que os motivos dos atletas diferem de situação para situação, de acordo com o nível de aprendizagem em que se situam (Lázaro, et al., s.d.).

Numa equipa, parece ser consensual que os atletas têm necessidade de demonstrar as suas competências. Afinal de contas, são estas que muitas vezes distingue os convocados e os não convocados. Os atletas orientam-se para os contextos em que se sentem competentes, para demonstrarem essa competência e obter sucesso (Fonseca & Maia, 2000). No entanto, o sucesso varia de significado de atleta para atleta. Para uns significa ser melhor do que os restantes. Para outros ser melhor do que antes (Fonseca & Maia, 2000). Neste sentido, é importante entender e compreender o conceito de sucesso de cada atleta, procurando que sejam definidos objetivos comuns em função da equipa (Fonseca & Maia, 2000). 

Ames (1992) expõe que a promoção de um clima motivacional deve ser orientado para a mestria, em vez de ser orientado para o rendimento, para desta forma, promover o prazer e divertimento, e aumentar a motivação intrínseca dos sujeitos.

A promoção de um clima motivacional, tendo por base conceitos como a mestria e a melhoria contínua, promove a aprendizagem, as estratégias adaptativas de aprendizagem, as competências sociais, as relações interpessoais e a autoestima (Cruz, 1996).

Um outro conceito a ter em conta na motivação é o das atribuições; as causas que os atletas associam aos acontecimentos que percecionam ou realizam (Fonseca & Maia, 2000). As causas que os atletas dão para os seus resultados, quer positivos quer negativos, influenciam os seus sentimentos e a sua motivação para desempenhos futuros (Fonseca & Maia, 2000). Assim, quando um atleta atribui o seu insucesso à falta de capacidade, torna-se desmotivante e o insucesso parece ter uma ligação a longo prazo (Fonseca & Maia, 2000). Já quando um atleta atribui o mesmo insucesso à utilização de estratégias erradas é motivacionalmente mais adaptativo (Fonseca & Maia, 2000). 

As causas que os atletas atribuem para o seu sucesso desportivo são muito importantes. Geralmente, os atletas atribuem como causas mais importantes para o sucesso desportivo a motivação, o esforço e a competência (Lázaro, et al., s.d.). No que diz respeito aos fatores externos, os atletas tendem a minimizá-los (Lázaro, et al., s.d.).

Para trabalhar esta competência Samulski descreve algumas técnicas de automotivação para atletas de alto rendimento. Muitos atletas motivam-se através da imaginação das suas capacidades positivas, utilizando as seguintes mentalizações “eu confio na minha técnica”, “eu consigo fazer isto”, “eu acredito na minha preparação” (Figueiredo, 2000). Com outros atletas utilizam-se autoreforços materiais (comprarem um presente para si mesmos) ou autoelogios (Figueiredo, 2000). Outras estratégias que melhoram a motivação são a elaboração de metas concretas com objetivos a curto e longo prazo e a visualização mental (Becker Júnior, 2001; Figueiredo, 2000).

Neste sentido, a Escola de Afetos fornece aos atletas e clubes desportivos avaliação psicológica, apoio psicológico e intervenção psicológica em grupo.



Texto escrito por Carolina Violas, Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde com uma dissertação em Psicologia do Desporto

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